Polêmico, o autor Manoel Carlos inovou ao escalar atriz Taís Araújo para protagonizar uma Helena negra, modelo, famosa e rica que vive no mundo da moda, na novela Viver a Vida, da TV Globo.
Mas, a crítica à trama feita pela mídia especializada é pontual: a novela conseguiu a façanha de criar uma “barriga” nos primeiros dois meses de estréia, enrolando na apresentação dos personagens e, principalmente, da história.
A Helena criada por Maneco não levanta a bandeira da cultura negra e, por isso, foi criticada por interpretar “uma branca”. Esse tipo de afirmação me dá "nó na garganta" e só reforça o preconceito velado que existe em nossa sociedade.
Afinal, os negros vivem, estudam, trabalham, namoram e se relacionamento da mesma forma que um branco, índio, amarelo, etc. Todos são seres humanos que vivem em sociedade.
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Inicialmente, circulou na mídia que a Helena seria médica. Mas, logo depois foi confirmado que ela seria uma modelo. Assim que a trama começou a personagem não agradou.
Não pelo fato de ser uma protagonista negra, mas sim por ela ser chata, certinha, dá lição de moral em todo mundo, não ter conflito e, aparentemente, viver um "mar de rosa" no relacionamento amoroso e na vida profissional. Um bom personagem precisa ter altivez e, principalmente, de um conflito próprio para resolver. Helena só se envolve no conflito dos outros.
Confesso que era fã de Manoel Carlos por ser um dos poucos autores que consegue escrever bem sobre os acontecimentos do cotidiano e que possui sensibilidade única na construção dos diálogos dos personagens. Estou com nojo da cena de humilhação que vi no capítulo de ontem (17/11) na novela e peguei birra! Pode ser que volte a assisti-la, quem sabe.
Assim como outros tantos telespectadores, esperava uma Helena forte, determinada e que venceu tabus e preconceitos por conseguir fama e sucesso profissional sendo negra. Não se trata de defender a bandeira da negritude e do racismo velado na sociedade, mas de interagir com os outros personagens da trama com personalidade.
Ser negro não é só uma questão de levantar a bandeira do racismo, mas de mostrar orgulho de uma etnia que ajudou a construir esse país (e porque não dizer o mundo) com a sua cultura, culinária, religião e música que influenciou toda a humanidade. Infelizmente, a raça negra vive a sombra da escravidão e a submissão de um povo que esteve à margem da sociedade durante séculos.
Aos poucos, o negro consegue se ver na mídia brasileira – o que já é uma grande vitória. Por exemplo, produtos cosméticos já são feitos para esse grupo (do qual me incluo) que também querem se sentir parte da sociedade. Não se trata de discriminação ou de presunção, mas o mundo é diverso e existem vários padrões de beleza.
No capítulo da última terça-feira (17/11) da novela Viver a Vida, exibida na TV Globo, foi marcada por uma profunda humilhação, submissão e desvalorização do negro, afetando diretamente o orgulho desta etnia. Boa parte dos veículos de comunicação noticiou esse capítulo como a "Tereza vinga o sofrimento da filha", passando justamente essa ideia de culpa - o que é rídiculo.
Durante uma determinada cena, a personagem Helena (Taís Araújo) pede perdão à Tereza (Lilian Cabral) por causa do acidente de Luciana (Aline Moraes). Apesar do contexto “emocional” que uma novela normalmente costuma explorar, Helena assumiu uma culpa que não era sua. Querendo ou não, acidentes acontecem. Não há como fugir disso: faz parte da vida.
Claro, é normal ter compaixão por uma pessoa que acabou de ficar tetraplégica, mesmo que ela seja mimada e arrogante, mas culpa: isso não. Quando alguém assume uma culpa é porque ele se responsabiliza por algo – e não foi isso que aconteceu.
Qual é a culpa de Helena? Ela sabotou o carro? Armou um plano para deixar a filha do marido acidentada? Helena colocou Luciana no ônibus de propósito sabendo que iria acontecer o acidente? Não. Fico me perguntando se o contexto fosse outro: se a vítima fosse a personagem de Taís Araujo, será que a Luciana teria tanto remorso?
É normal que os pais fiquem ao lado de um filho, ainda mais quando ele sofre um acidente. Mas o que está acontecendo com a Helena é vergonhoso e, no mínimo, humilhante. Humilhação não só à personagem, mas a etnia negra que se vê mais uma vez submissa na TV.
Esse artigo não tem a presunção de discutir se houve ou não racismo em Viver a Vida. Não é isso. É apenas questionar essa submissão e sentimento de culpa que caiu sobre a personagem de Taís Araújo.
Seria a hora ideal para o Maneco colocar uma Helena firme, dona de si e determinada, assim como as Helenas que foram interpretadas por Vera Ficher e e Christiane Torloni. A Helena virou a "Geni" de Viver a Vida, assim como a música de Chico Buarque. Todo mundo agora quer jogar uma pedra. Assim não dá!
Apesar do tom de humor, o Casseta e Planeta foi sábio ao parodiar a novela e retratar de forma bem humorada que a Helena não é culpada por tudo de ruim que acontece no mundo. Todos somos. Afinal, somos responsáveis por nossas escolhas.
Fotos: TV Globo / Divulgação.
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